Friday, March 30, 2007

 
Do "Rio do Esquecimento":

"No hospital Afonso repetiaà exaustão que os tiros
que se ouviram não eram para valer, podiam estar
descansados, eram trabalho de campo, os cabrões
gozam contigo à grande, rebentam trotil e outras
merdas do género ao ouvido e depois dizem assim:
é só para ficares um homem a sério, etecétera,
etecétera. Metem-te mochila aos ombros, armas e
outras inutilidades, dormes em cima de calhaus
no meio da serra e já meio doido dizes ai a guerrilha
é o que faz falta, mas não, não é puto guerrilha, é a
puta da guerra, pintam-te a cara de preto por causa
dos terroristas que são todos assim, fora uns filhos
da puta de uns brancos que também são pretos e
dizem que estás a defender a civilização cristã e a
religião dos nossos antepassados e que é assim mesmo
que um homem se faz homem e agora o resultado
está à vista: Afonso está um homem! O médico acaba
de informar que após este discurso do paciente estão
dissipadas todas as dúvidas que ainda lhe iam na alma:
ficará internado até dar mostras de melhorar substan-
cialmente destes maus pensamentos.
Quanto ao padre, nada de especial, apenas as orações
do costume salvariam o Afonso. Mandou tocar os sinos
a rebate, ecoaram badaladas por vales e montanhas,
estremeceram ecos até às profundas, foi um longo
desfilar de pancadas celestiais, veio o povo todo,
o povo vem sempre se houver espectáculo, à frente
as criancinhas da catequese com as suas batas brancas,
depois os notáveis da paróquia com as suas opas vermelhas,
logo a seguir a Sagrada Congregação da Beata Imelda,
depois os de S.Vicente de Fora e de seguida todo o cortejo
dos pecadores locais, que como se sabe, são em número
alto, ah, veio também o sacristão naquele momento
com a imagem da Senhora da Ajuda e ditou para a salvação
do Afonso todas as rezas e santas canções conhecidas...
"Enquanto houver portugueses..." e assim se fez: abriram-se
as portas dos céus e um trovão enorme fez aumentar o
clamor destas boas almas. Apareceu a procissão de todos
os doentes da aldeia. Estava tudo em rezas prolongadas,
o Padre debitava cada vez mais orações e o povo erguia
os olhos para os céus aguardando o milagre que
tardava: a cura do Afonso para descanso de todas aquelas
almas bem formadas. A velha Felismina estava já com os
olhos em êxtase, mãos bem assentes no chão à procura não
se sabe bem de quê, o Padre por detrás, mas nada de vergonhoso
aconteceu naqueles santos lugares. Tudo se compôs novamente
quando o sumo sacerdote rezou alto e bom tom para quem o
quis ouvir contra raios, tempestades e trovoadas.
E assim toda a tarde e pela noite dentro. Quando esta já ia
adiantada e se temiam fortes trovoadas com todo o seu cortejo
de raios e coriscos, ouviu-se de novo a voz da velha Felismina
a pôr ordem naquele adro algo descomposto e a gritar aos
quatro ventos que lhe concedessem um minuto de silêncio para
propor uma coisa das mais simples e de resultado certo: nada
mais, nada menos, do que um telefonema para o hospital para
saber se todas estas rezas já tinham chegado ao entendimento
do Afonso. Mas o problema complicou-se quando percebeu que
o telefone não funcionava, que seria aquilo? Telefone cortado
por falta de pagamento, má ligação ou a bestunta da funcionária
não o tinha colocado bem no sítio?
Logo se veria quando voltasse a tentar. E tentou em boa hora.
Foi o próprio Afonso que atendeu. O hospital andava num
virote. Qual funcionária, qual caralho, resmungou ele, para que
servem as funcionárias senão para funcionar, esta está a limpar
o pó na sala de visitas, eu estou aqui a ver se falo com o Presidente
que está sempre ocupado e a Direcção está fechada no gabinete
cheia de cagunfa, pois isto é assim mesmo, com a gente ninguém
se meta e se quiserem meter já sabem qual o melhor sítio, ou ainda
não sabem, sei, dizia a velha Felismina, mas foi o Padre que se
lembrou de tudo, o povo veio atrás, o povo vem sempre atrás e não
é nada de espantar, mas então o que deseja, disse o Afonso, saber
das melhoras, quais melhoras, replicou, repenicaram então os
sinos para ajuntar novamente os crentes e a velha Felismina
disse apenas isto: acho que nada dá resultado. Porquê, disse o
Padre. Pois sabe o que ele me recomendou, não, então fique
sabendo, nem mais nem menos, reguem-me os pinheiros e os
eucaliptos. Viraram-se todos para a floresta e viram as árvores
inclinadas, de sede, ou a agradecer ao Afonso, nunca ninguém
jamais o saberá."

(J.A.R.)

Comments:
:-)

Fico contente por ver que as coisas já estão normalizadas por aqui!

E calma, que o Salazar está morto e enterrado, e não se podem eleger fantasmas... ou podem? ;)

Um abraço e bom fim de semana
 
É um bocadito grande. E espesso.
Mas muito bom.

Ah, e é capaz de ferir algumas sensibilidaes cristalinas (???).

Mas, repito, é muito bom.

Abraço, ZR
do ZL
 
Olá, Papu:)
Obrigado!
O Salazar já não me preocupa...a questão é a descendência numerosa!Por outro lado, no blog, deu-me para brincar com a questão da censura! Também não acredito em bruxas..."pero..."!
Um grande abraço e bom fim de semana, com o sábado quase a evaporar-se! Por aqui regressou o frio!
 
Olá Zé Luís:)

Obrigado pelo comentário generoso!
Reconheço que em textos mais longos é mais arriscado! Mas este livro tem uma arquitectura muito própria e custa-me quebrá-la! Os próximos são mais curtinhos...
Um grande abraço e bom Domingo, já que o sábado já quase passou...como a vida passa a correr! E deixamos sempre para trás um milhão de coisas interessantes...
 
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